“Estamos conseguindo mobilizar essa turma. O desafio será manter o ritmo”

Em entrevista, Ana Paula Rovedder, coordenadora da Rede Sul, faz um balanço do trabalho do coletivo nos últimos três anos

13/3/2026

Professora da Universidade Federal de Santa Maria e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (NEPRADE-UFSM), Ana Paula Rovedder é uma das fundadoras da Rede Sul de Restauração Ecológica e sua coordenadora desde 2023. De lá para cá, o coletivo passou por grandes mudanças: tornou-se membro permanente da Comissão Nacional para  Recuperação da Vegetação Nativa (Conaveg) e capítulo (parceira regional) da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica, teve um crescimento de 49% do número de integrantes e realizou importantes ações de estruturação a partir do apoio financeiro recebido de parceiros.

Nesta entrevista, Ana faz uma avaliação dos cerca de três anos à frente da Rede Sul, período que chegará ao fim em breve, projeta os próximos desafios do coletivo e analisa brevemente o momento da restauração ecológica no Brasil.

Você assumiu a Rede Sul em 2023. Como era a Rede Sul que você assumiu e como ela está em 2026, quando você deverá dar lugar a uma nova coordenadora ou coordenador?

Ana Paula Rovedder:  A Rede Sul foi criada com o objetivo de fortalecer e alavancar a restauração ecológica na Região Sul, em um cenário bastante crítico para as políticas de restauração e conservação. Nós nos unimos a um movimento de construção dos coletivos biomáticos em todo o Brasil. Fomos a quarta rede biomática a ser criada, depois do Pacto pela Mata Atlântica – criado há 17 anos e que, por muito tempo, foi a única rede -, da Rede Araticum, do Cerrado, e da Aliança pela Restauração da Amazônia. Depois de nós, surgiram as redes da Caatinga e do Pantanal.

Nossa gestão, que é bastante horizontal, assumiu em 2023 com a perspectiva de avançar, após um primeiro momento de estruturação das bases. A partir de 2023, passamos a ser mais requisitados, principalmente no contexto federal, com a retomada da Comissão Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (CONAVEG), da qual passamos a fazer parte. A demanda por ações, trabalho e representações da Rede Sul, proveniente tanto em comissões de ministérios quanto de Organizações Não Governamentais (ONGs), passou a ser muito grande. Isso é muito positivo, mas exigiu bastante, pois ainda não tínhamos estrutura para absorver tanta demanda. Até 2025, a estrutura era básica e voluntária. Foi assustador, mas também uma vivência fantástica.

A partir de parcerias, tivemos as primeiras contratações de consultoria e fortalecemos a estrutura, o que nos permitiu entregar uma primeira consultoria ao Observatório da Restauração, um mapeamento de iniciativas de restauração no Pampa e na Mata Atlântica Subtropical. Contratamos consultoria para nos embasar com referenciais teóricos sobre os ecossistemas sulinos, além de serviços de secretariado-executivo e comunicação, o que representou um salto gigantesco de profissionalização da gestão.

A Rede chega em 2026, portanto, com um nível alto de sinergia e pujança, com um número bem maior de integrantes. Os grupos de trabalho que criamos por conta das contratações estão em ebulição, com participação de diversos integrantes. Estamos conseguindo mobilizar essa turma. Era o que esperávamos quando fundamos esse coletivo, mas não tão rápido. Foi um crescimento vertiginoso, um esforço grande para “recuperar o tempo perdido” e o desafio será manter esse ritmo.

De que forma a oficialização da Rede Sul como parceira regional da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE) repercutiu nesse contexto de estruturação e crescimento?

Ana Paula Rovedder: Essa é uma das grandes entregas da nossa gestão. A partir dessa articulação com a SOBRE e as demais redes, nós desenvolvemos a nossa proposta. Tivemos como referência o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que já era capítulo regional da SOBRE e chamamos de nosso “irmão mais velho” de 17 anos. Apesar de muitos integrantes da Rede Sul já terem uma relação anterior com a SOBRE, passamos um bom tempo entendendo como iríamos nos adequar. Conversamos com pessoas do Pacto e da SOBRE até que, em maio de 2025, nos tornamos capítulo.

Foi uma grande realização e um salto. Isso nos deu grande tranquilidade e confiança de que somos parte de uma estrutura forte e sólida que é referência mundial. A estrutura de redes do Brasil é única no mundo. Chega à Caatinga, à Amazônia, ao Pampa profundos, a diferentes grupos sociais e comunidades tradicionais. No Congresso Latino-Americano e do Caribe de Restauração, isso despertou enorme interesse de pessoas de outros países, que me pediam informações sobre essa estrutura.

Quais serão os principais desafios da Rede Sul nos próximos anos?

Ana Paula Rovedder: Assim como temos reconhecimento em várias esferas, há outras que não nos reconhecem. Há um desafio para a nova gestão que é popularizar e dar visibilidade à Rede Sul nos territórios sulinos. Paradoxalmente, às vezes temos maior reconhecimento nacional e em órgãos de gestão federais do que em nosso próprio território. Há nuances do território sulino que passam por estruturas de poder e resultam nisso.

Precisamos trabalhar nessa questão para alcançar o Pampa profundo, a Mata Atlântica profunda, comunidades indígenas e quilombolas, pecuaristas familiares. São grupos que precisam ser alcançados e agregados aos esforços de restauração e à Rede. Acho que o Encontro Rede Sul (a primeira edição será realizada nos dias 17 e 18 de março em Porto Alegre) nos ajudará. Por isso, estamos valorizando a presença destes grupos no evento e já estruturando um outro encontro, para junho ou para o segundo semestre, que vai ser com comunidades indígenas.

Outras prioridades são manter o ritmo de participação dos integrantes, fortalecer a governança e garantir a manutenção da profissionalização e das consultorias por meio da captação de recursos. Um debate importante nesse contexto é se devemos ou não permitir a participação de pessoas jurídicas na Rede. Mas há um desafio importante também que é o de manter os pés no chão nesse processo de crescimento. O trabalho voluntariado nos traz limitações, mas, por outro lado, nos garante muita liberdade, independência e horizontalidade. Começar com base no voluntariado é importante para qualquer rede e nós temos muito orgulho disso.

E quais são os principais gargalos e desafios para a restauração ecológica no Brasil?

Ana Paula Rovedder: Parece tão simples, mas é fazermos a legislação ser cumprida. Desde 2012, a Lei de Proteção da Vegetação Nativa estabelece que os estados instituam os Programas de Regularização Ambiental (PRA). Mas são poucos os estados brasileiros que os executam corretamente. E cinco estados sequer têm um programa: quatro do Nordeste e o Rio Grande do Sul.
O cumprimento dos PRAs é crucial para ampliar a escala da restauração, alavancar a cadeia produtiva do setor e gerar resiliência climática contra perda de vidas, de safras. Nós, do Rio Grande do Sul, vimos as consequências dessa omissão de forma dramática durante a enchente de 2024. Quando este PRA sair do papel, teremos demanda por sementes e mudas, iremos criar empregos, desenvolvimento sustentável e estaremos mais preparados para enfrentar as mudanças climáticas.

Para finalizar, o que você diria a uma pessoa que acabou de descobrir a restauração ecológica e pensa em se filiar a uma rede biomática ou à Rede Sul?

Ana Paula Rovedder: Brinco dizendo que tenha cuidado para não se apaixonar. O trabalho com a restauração de ecossistemas se torna uma paixão associada a um ideal elevado de vida. Então, encorajo as pessoas a conhecerem de perto a restauração ecológica e a se juntarem à Rede Sul ou a uma rede biomática.